sábado, 21 de abril de 2012

perguntaste-me de abril, meu amor?


Meu amor:


Falaste-me de Abril…


Que te direi…


Apenas que sonhei!


Ai Abril, Abril…


Sabes, nesse dia, eu, com apenas onze anos, cheguei a casa, vinha da escola, e lembro-me, num velho armário de tábuas de pinho estava um pequeno rádio, transístor, que naquela altura ainda soava a novidade, um pequeno rádio que lembro como se fora hoje: plástico laranja por trás, metalizado prata á volta, e negro pela frente.


Tocava músicas marciais.


Minha mãe disse-me:


-Houve uma revolução em Lisboa!


Revoluções, eu conhecia da história.


Eram feitos heroicos sempre a bem do povo.


E eu queria o bem do povo, e gostava da história heroica que me contavam.


Ai meu amor! Eu estava com a história!


Aqui comando geral do movimento das Forças Armadas…


Algo que começara as três da manhã só as sete da tarde eu sabia.


Tanto que eu não sabia!


Foi o mundo que se abriu!


Foi o saber que aqueles que me ensinaram a venerar não passavam de ditadores!


Gente que não deixava pensar, que não deixava ser, que não deixava amar!


Vi abrir-se a minha terra/ como um cravo de ternura…


Acreditava-se!


Acreditava-se na felicidade, acreditava-se na liberdade.


Eu, nos meus onze anos, eu que sempre vira a fraternidade e a solidariedade como grandes valores, percebi que havia gente a engordar á custa de outros que da miséria faziam o seu dia-a-dia.


Percebi que nem todos os homens tinham a mesma justiça, percebi que muitos não estavam com as suas famílias, seus pais, suas mães, porque um estranho poder não deixava.


Ai, meu amor!


Quanto me deram para sonhar em Abril!


Deram-me amor, esperança, mas também ódio, raiva, revolta e coragem!


Tanto sentimento contraditório!


Deram-me a democracia e disseram-me que todas as pessoas são iguais em direitos e deveres!


E eu acreditei!


Eu acreditei! …


Disseram-me que os homens e as mulheres eram pessoas!


Que nenhum tinha prevalência sobre o outro, e eu acreditei.


E de tudo isso fiz a minha batalha, a minha luta, a minha honra!


Juntei-me aos mais velhos que me contavam as histórias da repressão, ouvi-os.


Quis continuar a luta contra os “alguns” privilegiados e sonhei o mundo perfeito.


Quanta desilusão, amor.


Quanta desilusão!...


Acreditei que cada um poderia ter mais importância quanto mais desse ao seu povo.


Acreditei que conhecer e participar no crescimento do povo era mais importante.


Desilusão!...


Não pilhei, não roubei!


Não fiz nada por mim!


Só o meu pensamento enriqueceu, mas isso não paga o pão.


Acreditei na cultura, na história, na filosofia!


Mas acreditei mais na poesia, no romance…


Perdia vida!


Ai, amor!


Falar de Abril!


Perdi-lhe o significado!


Os vampiros andam por ai!


Os caciques, escapam da justiça, o povo continua arreigado às suas crenças e á sua ignorância.


Cada um vota no seu umbigo e não num ideal.


Ai, Abril, amor!


Que sonho que passou, que não há mais nessa bola colorida entre as mãos de uma criança.





Só há liberdade a sério quando houver


A paz, o pão, habitação, saúde, educação.


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


Quando pertencer ao povo o que o povo produzir





Entretanto temos os vampiros.


Entretanto temos os pesadelos de não saber se amanhã temos pão


De saber se amanhã não teremos que queimar os nossos livros


Ai meu amor, Abril deu-me esperança e deu-me mágoa.





Deu-me liberdade de amar, mas roubou-me o direito de amar.


Abril colorido de flores, de vermelhos cravos.





Numa pomba e num ramo de oliveira te quero dar a guerra!


Contra a ignorância, contra a pequenez de espírito, contra o analfabetismo.


Em suma contra todo o campo de batalha em que o povo continua reduzido e escravo a bem de alguns.





VIVE ABRIL.




Vicente de Sá
2006

Sem comentários:

Enviar um comentário